samedi 18 mars 2017

A.



A. é uma mulher delicada, fina, tanto por suas origens familiares quanto, creio, por suas inclinações naturais. Ela corresponde certamente a um padrão que muitas feministas dirão conformado às expectativas masculinas fixadas pelo patriarcado, embora ela seja totalmente independente e sua cultura esteja muito acima da maioria de suas congêneres. Ela é solteira, mas sequer imagino se por escolha própria ou falta de opções aceitáveis, já que não deve haver mesmo muitas opções aceitáveis para ela num país de homens rudes ou, na melhor das hipóteses, apenas semi-instruídos. Pouco importa: A. é interessante e culta. E não é mesquinha, coisa notável nestes tempos de baixeza. É professora na universidade e me diz que, desde 2012, tem terminado os semestres deprimida, precisando se retirar numa propriedade familiar em outro estado. Encontramo-nos de tempos em tempos para um café, quando confirmamo-nos mutuamente nossos diagnósticos sobre o mundinho no qual cumpre-nos sobreviver e seguir procurando um refúgio. A., como eu, sabe perfeitamente que a situação tende a piorar.

A. me diz que não há mais eruditos na academia, mas isto sei há décadas, desde que aí pus os pés pela primeira vez como estudante de composição musical. Diz-me também que sou um erudito, ao que só posso responder recuando à minha pequenez, porque não me creio, absolutamente, um erudito. Quanto às universidades, com a gentalha que as povoa, não são mesmo lugares frequentáveis para pessoas que, além de bem-educadas [defeito imperdoável num ambiente ora refém de ressentidos em vias de "empoderamento"], sejam razoavelmente cultas.

A. acha inaceitável que eu não exponha, que não faça publicidade de meu trabalho como pintor. Digo-lhe que, já há bastante tempo, nem pinto mais. E acrescento, para dar-lhe ao menos uma explicação, que não tenho interlocutores e assumo não colaborar muito com as "contingências", que até pioro as coisas, porque, afinal, sigo instruindo-me sempre mais e, amiúde, justamente por vias demasiado esotéricas, que me afastarão sempre cada vez mais de tudo e de todos. Cito uma romena que ando lendo, uma erudita como há tempos não encontro. Cito um tratado de Ibn' Arabî que mal começo, já admirando-o, a descobrir. Ainda por cima, gosto da pintura de um Bernardo Daddi e da turma do Trecento [e cada vez mais], com todos os problemas teológicos que essas obras arrastam consigo, remontando à querela iconoclasta dos séculos VIII-IX. Não troco Dufay e Busnois por nenhum compositor tonal. E não troco a música árabe clássica por nada que o Ocidente tenha produzido nos últimos quinhentos e poucos anos. Ela acaba por concordar que ando por terras um tanto inóspitas para "o comum dos mortais". Sabemos, ela e eu, que a lei da modernidade que ganhou o mundo é a lei do profano, do ignorante. [Não sei se ela me faria coro, mas digo como Horatius: Odi profanum vulgus et arceo.] E preciso explicar-lhe que minha abordagem da arte tornou-se definitivamente inconciliável com a visão de mundo hodiernamente reinante, ao que ela me fixa com um olhar que hesita entre a perplexidade e a desolação. Não obstante, ela sempre me faz votos de mudar de ideia. Prometo-lhe pensar com carinho, afinal, A. é gentil demais para ter seus votos ignorados.

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